Por mais vozes: a presença de docentes negras no _Campus_ Arapiraca na Universidade Federal de Alagoas
Por mais vozes: a presença de docentes negras no Campus Arapiraca na Universidade Federal de Alagoas
<suellen.amorim@arapiraca.ufal.br>
A docência no ensino superior brasileiro insere-se em um contexto de desigualdades estruturais, historicamente atravessado por racismo, colonialismo e capitalismo. Sob uma perspectiva interseccional de gênero e raça, observa-se que mulheres negras permanecem sub-representadas e enfrentam múltiplas opressões que afetam negativamente sua permanência, saúde mental e bem-estar. Este estudo analisa a presença, o perfil e as condições de atuação das mulheres docentes do Campus Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), inaugurado em 16 de setembro de 2006, com o objetivo de compreender como gênero e raça articulam-se na inserção acadêmica e nas vivências institucionais. A pesquisa adota uma abordagem mista (quanti-qualitativa), de natureza exploratória, descritiva e analítica. A metodologia combinou levantamento de dados bibliográficos e análise documental de legislações e documentos institucionais da Ufal. A coleta de dados primários foi realizada por meio de questionário eletrônico (Google Forms), aplicado a uma amostra de 108 mulheres docentes do Campus Arapiraca, no período de setembro a dezembro de 2025. Complementarmente, foram analisados dados secundários do site oficial da Ufal e dos currículos registrados na plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O referencial teórico fundamenta-se nos trabalhos de Crenshaw (2002), Carneiro (2005), Hirata e Kergoat (2007), Davis (2016), Kilomba (2019), Akotirene (2019), Almeida (2019) e Bento (2022). Os resultados evidenciam assimetrias raciais significativas na carreira docente. Enquanto as docentes brancas compõem a maior parcela do corpo docente e apresentam distribuição heterogênea entre os níveis de titulação, as docentes pretas, embora numericamente minoritárias, concentram-se integralmente nos níveis mais elevados de formação acadêmica, evidenciando trajetórias marcadas por maior exigência de qualificação para acesso e permanência na carreira. Identificou-se associação estatística entre raça e estagnação funcional, indicando que mulheres negras enfrentam maior lentidão nos processos de progressão na carreira. Ademais, a sobrecarga institucional, associada à divisão sexual e racial do trabalho, compromete a produtividade acadêmica dessas docentes. Os dados indicam a percepção de um ambiente universitário predominantemente hostil, considerando que a maioria das participantes relatou ter vivenciado ou presenciado situações de assédio. Conclui-se que as políticas institucionais voltadas à equidade de gênero e raça são percebidas como insuficientes para enfrentar as desigualdades identificadas, o que fundamenta a proposição de um Produto Técnico-Tecnológico (PTT) direcionado ao letramento racial institucionalizado e à criação de redes de apoio às docentes negras. A análise desenvolvida subsidia a formulação de ações institucionais orientadas à promoção da equidade racial e de gênero, contribuindo para o aprofundamento do debate sobre inclusão, reconhecimento e valorização das mulheres negras no espaço acadêmico.
Teaching in Brazilian higher education takes place in a context of structural inequalities, historically marked by racism, colonialism, and capitalism. From an intersectional perspective of gender and race, it can be observed that black women remain underrepresented and face multiple forms of oppression that negatively affect their retention, mental health, and well-being. This study analyzes the presence, profile, and working conditions of female teachers at the Arapiraca Campus of the Federal University of Alagoas (UFAL), inaugurated on September 16, 2006, with the aim of understanding how gender and race are articulated in academic integration and institutional experiences. The research adopts a mixed (quantitative-qualitative) approach, which is exploratory, descriptive, and analytical in nature. The methodology combined a bibliographic data survey and a documentary analysis of UFAL legislation and institutional documents. Primary data collection was carried out using an electronic questionnaire (Google Forms), applied to a sample of 108 female teachers at the Arapiraca Campus, from September to December 2025. In addition, secondary data from the official UFAL website and résumés registered on the Lattes platform of the National Council for Scientific and Technological Development (CNPq) were analyzed. The theoretical framework is based on the works of Crenshaw (2002), Carneiro (2005), Hirata and Kergoat (2007), Davis (2016), Kilomba (2019), Akotirene (2019), Almeida (2019), and Bento (2022).The results show significant racial disparities in teaching careers. While white female teachers make up the largest portion of the teaching staff and are heterogeneously distributed across qualification levels, black female teachers, although numerically in the minority, are concentrated entirely at the highest levels of academic training, revealing trajectories marked by greater qualification requirements for access to and permanence in the career. A statistical association was identified between race and functional stagnation, indicating that black women face greater slowness in career progression processes. Furthermore, institutional overload, associated with the sexual and racial division of labor, compromises the academic productivity of these teachers. The data indicate the perception of a predominantly hostile university environment, considering that the majority of participants reported having experienced or witnessed situations of harassment. It is concluded that institutional policies aimed at gender and racial equity are perceived as insufficient to address the identified inequalities, which supports the proposal for a Technical-Technological Product (PTT) aimed at institutionalized racial literacy and the creation of support networks for black female professors. The analysis developed supports the formulation of institutional actions aimed at promoting racial and gender equality, contributing to the deepening of the debate on inclusion, recognition, and appreciation of black women in academia.
Dr.ª Ferreira, Ligia dos Santos.
Ensino superior.
Mulheres negras.
Relações raciais.
Estudos de gênero.
Acesso restrito solicitado pela autora. Provável liberação em 21 fev. 2027.